08/07/14

O ponto mais baixo


Se você quer evoluir em algo, seja lá o que for, precisa aprender desde cedo a andar de mãos dadas com o fracasso. Não existe nada melhor para o caráter do que uma boa derrota.

Para o vencedor o desafio acabou. O objetivo esta completo, não há nada mais para aprender, nada mais para estudar. A vitória trás consigo a ilusão do fim.

Entretanto, aprendemos desde cedo que a derrota é vergonhosa, que é motivo de lágrimas. O problema não é perder, mas o que perder significa. Mas a verdade é que o perdedor não é pior que o vencedor, nem o vencedor é melhor que o ganhador.

Perder com dignidade é uma grande bobagem, quem perde é quem ganha. Quem perde pode aprender com suas falhas, quem perde pode refletir sobre seus erros, quem perde recebe de presente um guia para crescer; o ganhador só recebe um título.

É difícil romper essa barreira, romper a barreira do preconceito, mas uma vez que você percebe o quanto ainda existe para aprender, perder é fundamental, perder é uma benção.

E não digo que a derrota de hoje pode motivar o sucesso de amanhã, como se ela fosse a justificativa de uma redenção, digo que a derrota de hoje já é a vitória! Já é o prêmio maior!

Observando a mim mesmo, vejo a ganância motivando o jogo, a ganância impulsionando minha vontade de querer mais e então, quando não correspondida, vejo a raiva nascendo da ganância e alimentando a tristeza de não ser quem acho que deveria ser.

Mas uma vez que vejo isso, posso ir além, posso sentar com a cabeça fria e    conversar com meus pontos fracos e assim dar mais um passo.

Olhando em volta, vendo o que essa vida representa, essa sucessiva brincadeira do Universo em criar novos momentos sem aparentemente nenhum objetivo, penso que talvez essa seja realmente a única vitória: caminhar apreciando a paisagem.

02/06/14

Tem fogo?


Samsara (sânscrito-devanagari: संसार, perambulação) o fluxo incessante de sofrimento e felicidade estabelecido pelo dia a dia.

Samsara é a sua vida. Cada minuto da sua vida, quer você queira, quer não, nunca foi nada além de Samsara.

Samsara é um labirinto, um enorme labirinto sem saída. Um labirinto de ruas largas e arborizadas, de forma que você tem a sensação de não estar em um labirinto.

O público muda, mas os desejos são os mesmos. Cada qual escolhe aquilo que está mais alinhado ao seu desejo, mesmo sem saber que desejo é desejo, independente do objeto.

Você muda de emprego, de companhias, de lugares; novos continentes, amigos e culturas. “Aqui ainda não está bom, mas lá estará, certeza que estará!”. Ruas largas, muito largas. 

O que é ruim incomoda demais, mas o que é bom enjoa rápido, qual a solução? Disseram-lhe que o caminho da felicidade está em correr atrás de seus sonhos. Ah sim! Os sonhos. Nada tão largo quanto um sonho; ruas largas, muito largas, lembra-se delas?

A lista contínua de sorrisos na linha do tempo da rede social destoa das caras fechadas que perambulam mundo afora - não manifesta ditadura da felicidade superficial. Estar triste é vergonhoso e ser conduzido um sinal de fraqueza.

Nos foi dito que a posição do líder é o ponto maior a ser alcançado. Vida longa ao rei! Não nos disseram, entretanto, que na primeira fase o líder se julga superior aos demais, na segunda se julga inferior ao se colocar no lugar do outro e, então, na última fase, não existe diferença entre líder e conduzido, apenas caminho. Poucos chegam lá. Nessa trilha a arrogância e a soberba ofuscam o julgamento. Ruas largas, muitos largas, acho que já comentei sobre isso.

Mas hoje é um dia diferente, um dia triste. Um dia de assentar no frio da solidão. Os rostos passam a volta agitados, tomados pela excitação do que é passageiro, mas eu não, hoje não, hoje caminho pela rua estreita, pelo beco escuro.

Se reclamo do beco escuro me sinto infeliz; se me vanglorio por enfrentar o beco escuro me sinto superior. Independente da minha posição o beco é o beco e eu sou eu, ou não.

Sou eu, beco e escuro. Tudo e além de tudo. Aquele que vislumbra a inexistência da verdade sem existir como um aquele. Aquele que não se importa com a rua nem com o Samsara, porque pé e estrada são um só.

Seria a vida assim absurda a ponto de te colocar em um lugar onde só você existe? Onde só você é feliz e onde só você foi injustiçado? Não, a vida não discrimina. Eu, vivo e iludido por minha diferença é que discrimino. Eu, vivo e ofuscado pelo julgamento é que quero escolher o que deve ou não deve acontecer. Ruas largas, infinitas! Ruas que aprisionam minha liberdade sob minha permissão.

Tudo bagunçado, a ponto de pegar fogo, pena que não tenho um isqueiro.

18/03/14

Guia do desbravador destemido

Quando leio a frase "viajar o mundo" em algum lugar, lembro desse texto que escrevi para um colega que partiu para uma viagem sem destino com a companheira. Resolvi compartilhar.

"Sempre penso que esse negócio de viajar o mundo é exagerado, pessoal tem essa ideia romântica sobre conhecer o mundo se aventurando.

A verdade é que viajar é muito bom, mas enche o saco também! Uma coisa é você pensar nas culturas que vai conhecer, nas pessoas, nos lugares maravilhosos que vai visitar e outra coisa é o dia a dia.

Depois do primeiro mês esse negócio de ficar abrindo e fechando mochila começa a dar nos culhões, você não aguenta mais ter de ir de um lugar pro outro e já tá assado de usar cueca suja, porque não consegue uma lavanderia em Istambul. 

Os pequenos detalhes começam a fazer diferença: você não consegue um colchão legal pra dormir, faz 3 semanas que dorme com dor nas costas, tá comendo montes de comidas diferentes, já ganhou uns 5kg, tá se sentindo roliço, vai fazer o que? Contratar um plano na academia? 

Aí você tem uma diarréia em São Petesburgo, não sabe o nome de nenhum remédio, vai procurar no google não tem sinal de wireless, pensa em arrumar um chip 3G, mas em Mumbai precisa de endereço fixo pra comprar e você não tem, então vai no hospital em Tóquio, só que não consegue ser atendido, porque nenhum médico fala inglês.

Aí pensa, olha pra sua companheira e decide que talvez seja legal se fixar em algum lugar, pra criar um pouco de rotina, só que você não consegue alugar nada por menos de seis meses e o visto de turista termina em 45 dias. Então paga uma fortuna por um apartamento meia boca no mercado paralelo, a privada do banheiro tá vazando, mas você não pode arrumar, porque não conhece nenhum encanador. 

Depois de se ajeitar no apê, pensa em ir no shopping tomar um sorvete, hoje você não quer desbravar o mundo, quer só um sorvete! Mas você não sabe onde fica o shopping, então pega um táxi e pede "shopping", o taxista sacaneia na distância, todo maldito dia algum taxista te sacaneia, mas você vai fazer o que? Comprar um carro? Como? Se a sua carteira de motorista não vale nada na Ásia?

Então você fica chateado, está tendo um dia difícil, quer ligar pra um amigo, tomar uma cerveja, mas você não tem amigos, não tem telefone e em Dubai só pode tomar bebida alcoólica com visto especial, que você não tem.

Por fim olha pro lado, vê a sua acompanhante, que você não aguenta mais ouvir a voz, porque é a única voz em português que está ouvindo nos últimos 3 meses; 7 dias por semana, 24 horas por dia. Você começa a pensar que talvez ela não seja a pessoa da sua vida, pensa em discutir, terminar, mas lembra que está em Sidney, do outro lado do mundo, já pagou duas semanas de hotel, tem duas passagens compradas e não pode simplesmente desistir de tudo.

Enquanto isso, continua postando foto no facebook e no instagram pra falar que tudo é maravilhoso, enchendo de inveja o pessoal que está no ar condicionado do escritório, enquanto você passa um calor infernal em Cartagena, porque a cidade está sem eletricidade mais uma vez (é a terceira vez só hoje).

Apesar de tudo, sei o que você vai dizer que é justamente isso que faz valer a pena. Sim, faz valer a pena pra você, você não é todo mundo. Pare de tentar me vender essa ideia de que viajar o planeta é a coisa mais legal do universo. Talvez sua felicidade esteja aí, talvez não, cada um procura por ela onde acha melhor. Boa viagem!"

18/02/14

A Partida


Se você soubesse que partiria pela última vez, o que levaria consigo? Se soubesse que toda partida é a última, faria algo diferente?

O momento presente é como um penhasco entre penhascos. É impossível voltar e impossível saber onde o próximo salto vai dar. Entre esses dois penhascos toda vida acontece.

Entre dois penhascos você vai para a escola; entre dois penhascos você encontra o amor; entre dois penhascos o choro daquele pequeno ser lhe conquista; entre dois penhascos nos abraçamos e despedimos.

O que resta após o fim? Que fim é esse que nunca cessa? Como se datas pontuadas entre nascimento e morte resumissem todo o Universo.

Intenso...

Quando algo é bom o fim nos deixa tristes. Quando algo é ruim o fim nos deixa felizes. Lógica engraçada essa, que sugere que as piores experiências são as que nos deixam melhores.

Ouvi dizer que a felicidade é como um vagalume, pois acende e apaga o tempo todo e que o segredo para estar sempre feliz é ter muitos vagalumes. Interessante, só não esqueça que o escuro também é bom.

"Tchau e obrigado". Respondendo a primeira pergunta, isso é o que eu levaria em minha última partida. Não levaria roupas, documentos ou dinheiro. Não levaria nem mesmo meu nome. Levaria apenas essas duas palavras: "tchau e obrigado".

"Tchau", para sempre lembrar que tudo passa. Que o penhasco é só um momentâneo trampolim para a constante novidade.

"Obrigado", porque de penhasco em penhasco, fiz ótimos amigos.

Certa vez proclamou o Sábio: "o homem que parte de verdade não olha para trás".

Caro, Sábio, da forma como vejo as coisas, o homem que olha para trás não é o mesmo que partiu. Qual deles compreendeu a verdade?

Suave...

Olá, prazer em revê-lo, não, não emagreci, só estou mais leve. Desculpe, mas não tenho como lhe dar o que você pediu. O eu que você confunde comigo eu larguei há alguns penhascos atrás. Mas sim, ainda tenho algo a lhe dar, guarde com carinho, pois é o melhor de mim: "tchau e obrigado".

08/02/14

Culpado profissional


O anúncio no jornal não era uma farsa, surpreendentemente aquela figura em frente a mim repetiu com a boca cheia: "Prestamos serviços de culpa, você se impressionaria se soubesse quantas pessoas nos procuraram, todo mundo precisa de um culpado. Em que posso lhe ajudar?".

Gaguejei um pouco, pensei em voltar atrás, dizer que estava ali por engano, mas respirei fundo e fui em frente.

- Pre-pre-preciso... ... Preciso achar um culpado pelas minhas ações para continuar minha vida em paz.

- Você veio ao lugar certo! Que tipo de ações, ele questionou. Amorosas, profissionais... Criminosas?

- Do tipo amorosas.

- Bem, essas são as mais caras...

Olhou nos meus olhos, acendeu um cigarro e prosseguiu:

- Você precisa de um culpado para depositar todos seus erros. Justificar que seu papel foi perfeito o tempo todo e que tudo foi por água abaixo por conta de um outro alguém. Você precisa de um nome para entregar aos seus pensamentos, quando eles vierem lhe aterrorizar sobre o passado. Um nome que responda por tudo, que te livre do peso das suas expectativas. Você precisa de um culpado para justificar seu sofrimento e então relaxar no seu papel de vítima, frágil e carente, e que, por isso, não pode ser muito cobrada. Aquela pessoa que os outros dirão: "tadinha, está passando por um momento muito difícil". Seria isso?

- Si-sim... ...Isso! Exatamente isso!

- Nossos serviços garantem que você terá um responsável para culpar 24 horas por dia, 7 dias por semana. Você receberá um número exclusivo para ligar e xingar a hora que quiser. Nosso contrato de exclusividade permite que você fale mal de nós a qualquer momento, em qualquer ocasião, para qualquer pessoa.

- E é garantido mesmo?

- Garantimos seu total sigilo e contamos com uma extensa lista de clientes. Cada habitante desse planeta já requereu nossos  serviços em algum momento da vida.

- Você me convenceu! Quero contratar seus serviços.

- Você não vai se arrepender. Inclusive esse mês estamos com uma promoção para novos assinantes, fechando o plano do culpado amoroso você recebe grátis 3 meses do nosso pacote "livre de culpa", que lhe permitirá comer e beber à vontade, sem medo de ser feliz! Engordou? Coloque a culpa no metabolismo que iremos lhe disponibilizar!

- Nossa, que incrível! Me arrependo de não ter procurado vocês antes. Por curiosidade, vocês trabalham com mais algum serviço, além do culpado profissional?

- Olha, anos atrás quando começamos oferecíamos também o plano de motivação permanente, onde um consultor nosso jogava em sua cara todos os dias as suas responsabilidades, repassava suas metas e auxiliava na busca pelo seu futuro. Era um programa longo, duro, em que nosso papel era empurrá-lo constantemente para a luta. Sempre que um de nossos clientes pensava em desistir, estávamos lá, olhando nos olhos dele e dizendo: não será fácil, mas você escolheu o caminho difícil, em frente!

- Poxa, interessante. Não oferecem mais esse plano?

- Não, a saída era mínima.

- Que pena, de qualquer forma, ficarei com o culpado profissional mesmo. Não corro o risco de ficar viciado nisso não, né?!

- Amigo, fique tranquilo e lembre-se sempre: qualquer problema, a culpa é toda nossa!

17/12/13

Declaração a uma desconhecida


Ainda não conheço seu rosto, mas ouvi falar que já faz um tempo que você se encontrou. Notícias boas demoram a chegar. Sei que você não tem motivos para querer saber, mas eu continuo tão perdido quanto antes. É como se ultimamente minha bússola interna apontasse apenas para o presente.

Continuo em minha missão de reconhecimento. Busco pela minha força, aquela que não cede às vontades alheias, aquela que não se curva mesmo quando afrontada de forma injusta. Minha missão é conquistar, é descobrir em mim mesmo meus limites, o que posso e o que não posso. Normalmente o oceano profundo e escuro afasta os menos curiosos, mas minha alma desde sempre é do tipo que mergulha.

Corações quebrados, orgulhos feridos, nada que o tempo não cure. Aqueles que entendem minha jornada continuarão ao meu lado, enquanto aqueles que condenam minhas ações me abandonarão, como outros já o fizeram. Delicado balanço de despreendimento.

Ainda assim, venho notando que no trilho da vida a inocência é mais poderosa que a força. Observo as nuances do ritmo que se alterna: frente e trás, trás e frente, opostos que não são distintos.  Ao redor o ruído das mentes aumenta, mas agora não mais interferem no silêncio em mim.

Sou a calmaria que se assenta no olho do furacão, o espaço entre as gotas que desabam na tormenta. Absoluto e relativo caminhando de mãos dadas no entardecer.

Sem propósito, toda rota é a rota certa e chego ao meu destino sem sair do lugar. A impressão de que tudo parece diferente só é real quando a visão está focada na superfície. Cada centímetro de profundidade é um centímetro de essência.

Por isso lhe perguntou: o que você deseja? O que te faz feliz? As respostas são as mesmas? Creio que não. É difícil pensar com clareza, quando fomos treinados a responder perguntas que não são nossas.

Sei que o conselho de um ignorante parece inútil, mas se eu pudesse lhe dizer algo seria: pare de dedicar sua vida ao futuro.

Enquanto não nos encontramos, saiba que se precisar de algo pode sempre contar comigo. Prometo que estarei lhe esperando no momento em que perdermos as esperanças, na encruzilhada do amanhã sem expectativas.

Juntos enfim, teremos toda felicidade e toda a dor para compartilhar de coração a coração, dançando ao ritmo eterno e efêmero do nosso acaso. Quantas lembranças boas desses momentos mágicos que ainda não chegaram.

Assim será, meu amor, prometo, leve o tempo que quiser, só não demore muito.

21/10/13

180 por hora


Não é mais dia, mas ainda não é noite. A penumbra da transição entre a claridade e a escuridão acompanha meus passos. Ritmo constante, marcado pela respiração profunda e pelos batimentos cardíacos registrados no relógio com monitor cardíaco.

140 batimentos por minutos, ainda não estou na faixa de treino, acelero o ritmo, os pensamentos acompanham meu exercício solitário.

   "- Não sei até onde posso confiar em você."
   E qual a outra opção?

   "- Acorda Maurício, você vai perder o horário."
   Eu não me chamo Maurício.

148 batimentos por minuto, 79% da minha frequência máxima.

   As expectativas alheias me perseguem na rua. Todas as cláusulas que fui obrigado a assinar e fiquei com preguiça de ler. Gostaria de relaxar, sabendo que nunca será o bastante, que o que ofereço é o que temos para hoje, mas o caminho é longo e o treino apenas começou.

152 batimentos por minuto, 82% da frequência máxima, porém com 6 minutos por quilômetro ainda estou longe do meu ritmo. Vamos!

   Recordo do passado recente, de como as coisas se desenrolaram, de como foi difícil fazer algumas escolhas, de como foi difícil enfrentar o perigo de cabeça em pé. Seria tão mais fácil sentar na posição de passageiro e deixar a vida levantar vôo, mas poesia não enche barriga, nem apazigua o ardor do fogo na pele.

   Os ativistas salvaram os cachorrinhos, mas largaram os ratos para trás. O batom vermelho delineia os contornos da boca. E as crianças? Quem vai salvar as crianças? E os mendigos? E os pobres? E os doentes? Gritos altos ecoam, quem vai me salvar da minha passividade? Da minha falta de motivação, da minha falta de coragem em buscar o que quero?

   A barriga aumenta, os filhos são esquecidos no quarto e a jornada de trabalho é a culpada pela falta de tempo. Devia ter lido as cláusulas! Ainda bem que amanhã é segunda, amanhã vou mudar, amanhã serei quem eu gostaria de ser, amanhã vou atrás de tudo que deveria estar fazendo.

161 batimentos por minuto, estou acima do limite saudável. Beep, beep, beep, o monitor cardíaco reclama. Desse ponto não tem volta.

   Busco encarar os problemas de outra forma, enumero as soluções, rio da besteira que isso tudo representa. A estratégia de resolver conflitos com aparentes verdades é muito efetiva. Deus dará! Meu fracasso é só falta de fé!

   Os números se repetem na tela do computador, uma, duas, trezentas vezes. Cada vez melhor em chegar a lugar nenhum. A tela do celular interrompe o mantra digital. Alguém compartilhou a curtida da minha foto, que delícia, mais uma dose homeopática de clonazepam invade minhas artérias. Quero mais.

   O café esfriou na mesa, é a segunda vez hoje. Dez minutos se passaram e nada apitou, melhor ver se o celular está com sinal; dez minutos se passaram e nada apitou, melhor ver se o celular está com sinal; dez minutos se passaram e nada apitou, melhor ver se o celular está com sinal.

167 batimentos por minuto, 90% da frequência máxima, o corpo chia, a cabeça voa. Agora vai.

   Depois de nove meses trabalhando de graça finalmente a primeira parcela caiu na conta - pensaram que eu ia abrir mão. Os resultados das simulações mostraram que as suspeitas iniciais eram corretas - imaginaram que não seria possível. Estive presente - disseram que eu não iria.

   Só é difícil mesmo quando você para para pensar. Analiso, observo, corrijo a rota. Estou no caminho certo, seta para cima. Se parece que estou perdido, é só charme, tenho plena consciência do que faço.

172 batimentos por minuto, se fosse um teste ergométrico a enfermeira iria suspender a atividade. Falta pouco, reta final, eu não vou parar.

   A endorfina preenche o corpo, juntamente com o silêncio que permeia os não pensamentos. Cabeça vazia, um pé depois do outro, a brisa da noite seca o suor do rosto. Não me recordo do meu nome, que nome?

   Plenamente conectados, eu, tu ele, nós, vós, eles. O redemoinho fica para trás, a prática liberta novamente. Profundo e sem barreiras - sem refém, não existe sequestrador - sei que gostaria de ouvir desculpas por não suprir vossos anseios, mas não há ninguém aqui para se desculpar. 

    Paz constante e eterna, sou seu devoto.

165 batimentos por minuto. Reduzo o ritmo, é o suficiente. O ego precisa chegar aos 180, eu não.